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Decreto e Destino Divinos e Livre-Arbítrio Humano

Colocado no site em 28.11.2005

Autor M.Fethullah Gülen


A palavra árabe traduzida como destino é qadar. Em suas derivações, essa palavra também significa determinação, dando determinada medida e forma, dividindo e julgando. Estudiosos muçulmanos do Islam o definem (o Destino) como medida Divina, determinação e julgamento na criação das coisas.

Antes de discutirmos Decreto e Destino Divino mais a fundo, considere os seguintes versos relevantes:

“Ele possui as chaves do incognoscível, coisa que ninguém, além d’Ele, possui; Ele sabe o eu há na terra e no mar; e não cai uma folha (da árvore) sem que Ele disso tenha ciência; não há um só grão, no seio da terra, ou nada verde, ou seco, que não esteja registrado no Livro lúcido (Kitabun Mubin).” (6:59).

“E não há mistério nos céus e na terra que não esteja registrado no Livro lúcido.” (27:75).

“Nós ressuscitaremos os mortos, e registraremos as suas ações e os seus rastros, porque anotaremos tudo num Livro lúcido (Imamun Mubin).” (36:12).

“Porém, perguntaram: Quando se cumprirá tal promessa? Dizei-nos, se estais certos. Responde-lhes: Só Deus o sabe, e eu sou unicamente um admoestador elucidante.” (67:25–26).

“Sim, este é um Alcorão Glorioso, Inscrito em uma Tábua Preservada (Lawhun Mahfuz).” (85:21–22).

Num sentido, Decreto e Destino significam a mesma coisa. Noutro (em outro) sentido, contudo, Destino significa predeterminar ou preordenar, enquanto Decreto significa implementar ou por em ação. Para ser mais preciso, Destino significa que tudo que existe, de partículas subatômicas ao universo como um todo, é conhecido por Allah Todo-poderoso. Seu Conhecimento inclui todo espaço e tempo, enquanto Ele mesmo é absolutamente livre de ambos. Tudo existe de acordo com o seu Conhecimento, e Ele designa para cada ser determinada forma, tempo de vida, função ou missão, e determinadas características.

Considere a seguinte analogia: Autores têm conhecimento exato e completo dos livros que escreverão, e organizam seus conteúdos antes de escrevê-los. Nesse sentido, Destino é quase idêntico a Conhecimento Divino, ou é um título de Conhecimento Divino. É por essa razão também chamado de "Suprema Tábua Preservada" (ou o "Registro Manifesto"). Destino também significa que Allah faz tudo de acordo com uma determinada norma e n um equilíbrio exato:

“Deus sabe o que concebe cada fêmea, bem como o absorvem as suas entranhas e o que nelas aumenta; e com Ele tudo tem sua medida apropriada.” (13:8).

“O sol e a lua giram (em suas órbitas). E as ervas e as árvores prostram-se em adoração. E elevou o firmamento e estabeleceu a balança da justiça, Para que não defraudeis no peso. Pesai, pois, escrupulosamente, e não diminuais a balança!” (55:5-9).

A medida e equilíbrio exatos do universo, ordem e harmonia, tanto quanto de tudo que ele contem, claramente demonstra que tudo é determinado e especificado, criado e governado por Allah Todo-poderoso. Portanto, Destino Divino existe. Tais afirmações como o determinismo, que é apoiado por muitas pessoas e até por alguns Marxistas, para explicar esta óbvia ordem universal e operação são implícitas aceitações de Destino. Mas nós temos que esclarecer um ponto aqui: De acordo com o Islam, determinismo absoluto não pode ser usado no contexto da ação humana.

Todas as sementes, formas proporcionadas e reguladas, e a extraordinária ordem e harmonia do universo (que tem continuado por bilhões de anos sem interrupção ou desvio) demonstram que tudo ocorre de acordo com a determinação de Allah Todo-poderoso. Cada semente ou óvulo é como um invólucro formado por (pelo) Poder Divino no qual Destino Divino insere a futura história da vida duma (de uma) planta ou um ser vivo. Poder Divino emprega átomos ou partículas, de acordo com a medida estabelecida por Destino Divino, para transformar cada semente numa planta específica, e cada óvulo fertilizado num ser vivo específico. Isto quer dizer que a futura história de vida dessas entidades, tanto quanto os princípios que governam suas vidas, estão pré-gravados na semente ou no óvulo fertilizado como fatores determinantes e processos.

Plantas e seres vivos são formados dos mesmos materiais básicos. No entanto, há uma quase infinita variedade entre espécies e individuais. Plantas e seres vivos crescem dos mesmos elementos básicos constituintes, e demonstram grande harmonia e proporção. E mesmo assim há uma tão grande diversidade que nós somos forçados a concluir que cada entidade recebe uma forma e medida específica. Esta forma e medida específicas são estabelecidas por Destino Divino.

O Registro Manifesto e O Livro Manifesto

Por exemplo, uma semente exibe (o) Destino de duas maneiras: demonstrando o Registro Manifesto (Imamun Mubin) e demonstrando o Livro Manifesto (Kitabun Mubin).

O Registro Manifesto, outro título para Conhecimento e Comando Divinos, inclui todas as coisas e eventos no universo. Isto é, toda coisa e evento têm uma pré-existência em Conhecimento Divino. Quando é (a) hora para eles virem ao mundo ou quando Allah quer trazê-los ao mundo, ele os veste na existência material. O Registro Manifesto refere a isso. Uma semente contem a vida futura da planta que crescerá dela. A vida da planta também termina em sementes, cada uma das quais pode ser considerada como a memória da planta. As novas plantas que crescerão dessas sementes serão quase idênticas à planta original, mas nenhuma delas tem um espírito consciente dotado com livre-arbítrio. Assim, além de servir como uma analogia para o Registro Manifesto e, portanto Destino e conhecimento(s) Divinos, (em) uma semente também indica a Suprema Tábua Preservada (Lawhun Mahfuz) e corresponde à memória humana no reino humano. Além disso, porque uma semente indica que as histórias de vida das criaturas são registradas, ele também aponta para a pós-vida.

O Livro Manifesto é outro título para Vontade Divina e as leis de Allah funcionais e de criação do universo. Se nós referirmos ao Livro Manifesto como Destino Teórico ou Formal, o livro Manifesto pode ser referido como Destino Verdadeiro. A futura forma madura duma (de uma) planta ou dum (de um) ser vivo, que demonstra todo o conteúdo da semente ou óvulo fertilizado, pode ser entendida como seu Destino Verdadeiro.

Em resumo, assim como sementes ou plantas ou óvulos fertilizados e seres vivos, tudo que existe claramente aponta para o Destino Divino, determinando e julgando, assim como medindo, particularizando, e individualizando. Sonhos verdadeiros que nos informam de certos futuros eventos são outra, inegável indicação de Destino ou predeterminação Divina.

Pergunta: Por que a crença em Destino é um dos princípios básicos de fé? Resposta: Nossa presunção e devoção fraca nos levam a atribuir nossas realizações e boas ações a nós mesmos e a nos sentir orgulhosos de nós mesmos. Mas o Corão (Alcorão) explicitamente afirma: “Apesar de Deus vos ter criado, bem como o que elaborais?” (37:96), no sentido de que Compaixão Divina exige boas ações e que o Poder do Senhor as cria. Se nós analisarmos nossas vidas, conseqüentemente nós percebemos e admitimos que Allah nos dirija às boas ações e geralmente nos previne de fazer o que é errado.

Além disso, por nos presentear com suficiente capacidade, poder, e os meios para realizar muitas coisas, Ele nos capacita a realizar muitos feitos e boas ações. Da mesma forma que Allah nos guia para as boas ações e nos faz querer e depois fazê-las, a real causa de nossas boas ações é Vontade Divina. Nós podemos "possuir" nossas boas ações apenas através da fé, devoção sincera, rezar para sermos merecedores delas, conscientemente acreditar na necessidade de fazê-las, e estar satisfeito com o que Allah determinou. Dito isso, não há razão para nos gabar ou sermos orgulhosos; ao contrário, nós devemos permanecer humildes e agradecer a Allah.

Por outro lado, nós gostamos de negar responsabilidade por nossos pecados e más ações atribuindo-os ao Destino. Mas já que Allah nem gosta nem aprova tais atos, todos eles pertencem a nós e são cometidos quando exercemos nosso livre-arbítrio. Allah permite pecados e os dá formas externas, porque se Ele não o fizesse nosso livre-arbítrio não teria sentido. Pecados são o resultado de nossa decisão, através de nosso livre-arbítrio, de pecar. Allah nos chama e guia a fazer boas ações, até as incute dentro de nós, mas o livre-arbítrio nos permite desobedecer nosso Criador. Portanto, nós "possuímos" nossos pecados e más ações. Para proteger nós mesmos contra pecados e tentações de Satã e nossas carnais almas inclinadas ao mal, nós devemos nos esforçar para remover ou disciplinar nossas inclinações para o pecado através de arrependimento e pedir perdão por eles. Além disso, nós devemos direcionar e estimular nós mesmos a fazer boas ações por meio da reza, devoção, e confiança em Allah.

Resumindo, porque nós temos livre-arbítrio e somos mandados seguir obrigações religiosas e nos abster de pecados e más ações, nós não podemos atribuir nossos pecados a Allah. Destino Divino existe afim de que crentes não se orgulhem de suas "próprias" boas ações, mas ao invés disso que agradeçam a Allah por elas. Nós temos o livre-arbítrio para que o nosso ser carnal rebelde não escape das conseqüências de seus pecados.

Um segundo, importante ponto a mencionar é que nós geralmente nos queixamos sobre eventos passados e infortúnio. Pior ainda, nós as vezes nos desesperamos e abandonamos nós mesmos a um dissoluto estilo de vida, e podemos até começar a nos queixar contra Allah. No entanto, (o) Destino nos permite relacionar eventos passados e infortúnios a ele para que assim nós possamos receber alívio, seguridade (segurança), e consolação.

Então, qualquer coisa que aconteceu no passado deve ser considerada na luz do Destino; o que está para vir, tanto quanto pecados e questões de responsabilidade, deve ser referido ao livre-arbítrio humano. Nessa maneira, os extremos de fatalismo (jabr) e o negar do papel do Destino nas ações humanas (i'tizal, a visão do Mu'tazila) está reconciliado.

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