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Decreto Divino e Destino

Colocado no site em 15.03.2006

Autor M.Fethullah Gülen


Em relação ao Conhecimento Divino; Deus está completamente além de nossas habilidades de comparação e concepção, e, portanto nós podemos adquirir apenas um pouco do conhecimento de Seus Atributos e Nomes, não de sua Essência Divina, meditando sobre e estudando (meditando e estudando sobre) Seus atos e criaturas. Para entender Seus atos, algumas vezes nós temos que recorrer a comparações, como é permitido no verso corânico: Seu é o mais elevado exemplo (30:27). Nós podemos conseguir um vislumbre da relação entre Decreto Divino, Destino e Conhecimento Divino ponderando sobre as seguintes comparações:

Suponha que um homem extremamente habilidoso, que é um engenheiro e assim como um arquiteto e um construtor, quer construir uma magnífica casa. Primeiro, ele deve determinar que tipo de casa ele queira (quer) (a casa existe em sua mente). Então, ele desenha a planta (a casa existe como um verdadeiro projeto ou plano). Depois disso, ele constrói a casa de acordo com a planta (a casa adquire uma existência material). Já que as pessoas podem ver a casa, sua imagem é gravada em numerosas memórias. Mesmo se ela for completamente destruída, ela sobrevive nestas memórias e na mente e plano do construtor (a forma final da existência da casa, a qual adquiriu um tipo de perpetuidade).

Antes de escrever um livro, um autor deve ter seu conteúdo completo ou conhecimento de todo seu significado em sua mente (o livro existe como conhecimento ou significado). Fazer esse conhecimento ou significado visível e conhecido, ele deve expressá-lo em palavras. Antes de fazer isto ele deve organizá-lo (uma "planta"), e depois anotá-la (existência material). Mesmo se o livro for destruído e desaparece, ele continua a viver nas memórias daqueles que leram ou ouviram-no, e na própria mente do autor.

Tal existência — existência na mente — é a existência essencial do assunto. Mesmo se o assunto em questão não é colocado em palavras ou prática, seu conhecimento ou significado existe na mente. Portanto, apesar de que conhecimento ou significado precisam de matéria para serem vistos e conhecidos neste mundo, eles são a essência da existência, sobre a qual a existência material depende.

Do mesmo modo, Deus tem completo e exato conhecimento do universo e de todo o seu conteúdo. Isto é declarado muitas vezes no Corão (Alcorão) como, por exemplo, em:

"É possível que repudieis algo que seja um bem para vós e, quiçá (talvez), gosteis de algo que vos seja prejudicial; todavia, Allah sabe, e vós ignorais." (2:216)

"Dize: Quer oculteis o que encerram os vossos corações, quer o manifesteis, Allah bem o sabe, como também conhece tudo quanto existe nos céus e na terra, porque é Onipotente." (3:29)

"Ele possui as chaves do desconhecido, coisas que ninguém, além d'Ele, possui; Ele sabe o que há na terra e no mar; e não cai uma folha (da árvore) sem que Ele disso tenha ciência; não há um só grão, no seio da terra, ou nada verde, ou seco, que não esteja registrado no Livro esclarecedor." (6:59)

"Dize-lhes: Se o oceano se transformasse em tinta, com que se escrevessem as palavras de meu Senhor, esgotar-se-ia antes de se esgotarem as Suas palavras, ainda que para isso se empregasse outro tanto de tinta." (18:109)

Mesmo se Ele não tivesse criado o universo, ele ainda existiria em Seu Conhecimento. Visto que Deus está além de todo tempo e espaço, ambos os quais estão em Seu Conhecimento como um único ponto, e visto que Seu eterno, oniabrangente Conhecimento não depende deles, tempo é um todo unificado. Dado isto, precedência ou posterioridade, seqüência ou divisão de tempo, e todos os outros conceitos relacionados com o tempo não existem para Ele. Nós devemos sempre lembrar que nossas categorias de tempo passado, presente e futuro são apenas categorias artificiais projetadas para fazer nossas vidas mais manejáveis. Tempo e espaço são também somente duas dimensões de criação.

Tudo existe eternamente no Conhecimento de Deus, e Ele literalmente sabe tudo sobre tudo. O Poder Divino cobre uma coisa na existência material de acordo com a Vontade Divina, e esta transferência do Conhecimento para o nosso próprio mundo acontece dentro dos limites de tempo e espaço. Conhecimento e Vontade são dois Atributos essenciais do Ser Divino: Deus sabe coisas, coisas existem em Seu Conhecimento, Sua Vontade determina todas as suas características específicas e gerais, e Seu Poder lhes dá existência material. A relação que abrange tudo entre Conhecimento Divino e Destino, é melhor expressada como: "E não existe coisa alguma cujos tesouros não estejam em Nosso poder, e não vo-la enviamos, senão proporcionalmente." (15:21)

Em Relação ao Registro e Duplicação. Tudo que existe no Conhecimento Divino tem uma forma individualizada e uma certa medida, ou, se podemos dizer assim, como um plano ou projeto, está num Registro. Este registro é chamado, em um lugar, Suprema Tábua Preservada (85:22) e, em outro, o Registro Manifesto (36:12). O Corão (Alcorão) declara que nada acontece conosco exceto aquilo que Deus decretou ou predeterminou para nós (9:51) e não há uma criatura que se mova na terra, nem uma criatura voadora que voa com duas asas, mas eles são comunidades como a espécie humana, e que Deus não negligenciou nada no Registro (6:38).

Este Registro (ou Registro original) é um título para Conhecimento Divino em relação à criação. Durante o "processo" de criação, esse Registro é duplicado. Sua primeira, mais abrangente duplicação — toda a criação — é a Tábua de Aniquilação e Confirmação (ou o Livro Manifesto.) Enquanto a Suprema Tábua Preservada (ou o Registro Manifesto) contém os originais de tudo no Conhecimento Divino, tanto quanto os princípios e ( AS) leis de criação, a Tábua de Aniquilação e Confirmação é a realidade e, metaforicamente, uma página do fluxo de tempo. O Poder Divino transfere coisas da Suprema Tábua Preservada para a Tábua de Aniquilação e Confirmação, as arranja na página do tempo e, em troca, as prende no fluxo de tempo. Nada muda na Suprema Tábua Preservada, já que tudo que existe lá é fixo. Mas durante o processo de criação, Deus apaga o que Ele quer, e confirma e estabelece o que Ele quer. (13:39)

Depois da nascimento, todos são registrados num Registro de Nascimentos. Então, baseado nessa informação, todos recebem um documento de identidade. Semelhantemente, todas as características pessoais, particularidades, e futura história da vida de todos são registradas na Suprema Tábua Preservada, a qual depois é copiada por anjos. Eles anotam todas as informações relacionadas ao corpo de alguém, e a codificam em células como informações ou leis. Para que essa informação funcione e venha a vida, no entanto, o espírito precisa ser introduzido no corpo.

A outra parte dessa cópia é presa ao redor do pescoço na forma de um livro invisível (17:13). Nós promulgamos tudo o que estiver naquele livro enquanto nós estivermos vivos. Isso não quer dizer que Destino ou predeterminação nos força a atuar de uma certa forma, porque Destino não é mais do que um tipo de conhecimento. Por exemplo, você manda alguém a algum lugar para fazer um trabalho. Obtido os suprimentos necessários, você dá instruções ao homem e o manda cumprir a ordem. Posto que você já sabe como ele se comportará, você anota os detalhes da viagem num caderno e o esconde num bolso secreto na jaqueta dele. Sem ter consciência do caderno, esse rapaz se comporta como deseja enquanto viaja. Você também despacha dois dos seus mais confiáveis homens para seguí-lo para observar e filmar secretamente qualquer coisa que ele disser e fizer. Quando ele retorna, você compara os videoteipes com o caderno e vê que eles são exatamente os mesmos. Mais tarde, você o entrevista e vê que ele seguiu as suas instruções, e depois ou recompensa, pune, ou o perdoa de forma adequada.

Como no exemplo acima, Deus, que está além de todo tempo e espaço e portanto tem um conhecimento abrangente, grava a história de nossas vidas no Registro original. Anjos copiam essas informações e fixam um registro pessoal, o qual nos chamamos de destino ou sorte, ao redor do pescoço de cada pessoa. A aparente presciência e gravação de Deus de nossos feitos e palavras não nos compelem a fazê-las, porque seja o que for que dissermos ou fizermos é o resultado do uso do nosso livre-arbítrio.[1] Toda a nossa vida é registrada por dois anjos, chamados Kiramun Katibun (nobres escribas). No Dia do Julgamento, nosso registro nos será apresentado, nós seremos ordenados a lê-lo: "E a cada homem lhe penduramos ao pescoço o seu destino e, no Dia da Ressurreição, apresentar-lhe-emos um livro, que encontrará aberto. (E lhe diremos): Lê o teu livro! Hoje bastarás tu mesmo para julgar-te." (17:13–14)

Em Relação à Vontade Divina. Deus registra tudo em Seu Conhecimento num registro contendo cada característica única, expectativa de vida, provisão, tempo e local de nascimento e morte, e todas as palavras e ações de cada coisa. Tudo isso acontece pela Vontade Divina, já que é através da Vontade Divina que cada coisa e evento, seja no reino do Conhecimento Divino ou nesse mundo, conhecido e dado uma certa direção. Nada existe além do escopo da Vontade Divina.

Por exemplo, um embrião encara inumeráveis alternativas: se ele será um ser vivo, se existirá ou não, quando e onde nascerá e morrerá, e quanto viverá, para mencionar apenas alguns. Todos os seres são completamente únicos em complexão e fisionomia, caráter, preferências, e assim em diante, ainda que sejam formados dos mesmos elementos básicos. Uma partícula de comida que entra num corpo, seja de um embrião ou um já completamente formado, também encara incontáveis alternativas quanto a sua destinação final. Se apenas uma partícula destinada para pupila do olho direito fosse parar na orelha direita, isto poderia resultar numa anomalia.

Assim, a oniabrangente Vontade Divina ordena tudo de acordo com um plano miraculosamente calculado, e é responsável pela miraculosa ordem de harmonia do universo. Nenhuma folha cai e nenhuma semente germina a menos que Deus deseje que ela faça assim.

Nosso livre-arbítrio está incluído na Vontade Divina. No entanto, nossa relação com a Vontade Divina se diferencia daquela de outros seres, pois apenas nós (e os jinn) podemos escolher, uma conseqüência do livre-arbítrio. Baseado no Seu Conhecimento de como nós agiremos e falaremos, Deus Todo-poderoso gravou todos os detalhes de nossa vida. Uma vez que Ele não é limitado pela divisão humana do tempo, e por isso artificial, em passado, presente, e futuro, o que nós consideramos predeterminação existe em relação a nós, não ao próprio Deus. Para Ele, predeterminação significa Seu eterno conhecimento de nossos atos.[2]

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[1] Tal presciência e pré-gravação são aparentes, porque tempo passado e futuro são relevantes apenas para a humanidade. Elas não podem, e não se aplicam a Deus. Já que ele "vê" tudo simultaneamente, não existe algo como "pré" quando se fala d'Ele. [2] O islã não aceita o conceito teísta de Deus, ou seja, que Ele criou o universo e o deixou para administrar a si mesmo. Nós somos contidos por tempo e espaço, e portanto somos limitados das seguintes maneiras: nós não podemos tirar exatamente conclusões verdadeiras sobre a relação entre o Criador e a criação, nós não podemos perceber a eternidade, e nós temos poucas informações verdadeiras sobre esse mundo. Deus está além de todo tempo e espaço, e é infinito e eterno. Ele segura o universo em Sua "mão" e o controla e gerencia como Ele deseja. No entanto, para que nós possamos vislumbrar Suas ações e adquirir um pouco de conhecimento sobre Ele e Seus Atributos, Ele permite aquelas de Suas manifestações relacionadas à criação serem limitadas por tempo e espaço. Se Ele assim não fizesse, a vida não poderia existir e nós não poderíamos adquirir nenhum conhecimento sobre Ele e o universo. Portanto, o que nós dissemos sobre Sua Vontade e Seu Destino deve ser considerado na luz do fato que nós podemos conversar sobre esses assuntos somente de dentro dessa vida (limitada por tempo, espaço, e matéria) e de nossa própria existência.

Em soma: A Vontade Divina domina a criação, e nada pode existir ou acontecer além se seu escopo. Ela também é responsável pela ordem e harmonia miraculosas do universo, e dá a cada as coisa e evento uma direção e características específicas. A existência da Vontade Divina não nega o livre-arbítrio humano.

Em Relação à Criação. Existem dois aspectos da relação entre Decreto Divino, Destino e criação. Primeiro, como um fator determinante e convincente, Destino é absolutamente dominante em todos os lugares, exceto pelo reino no qual o nosso livre-arbítrio tem uma função. Tudo ocorre de acordo com Sua medida e determinação, julgamento e direção. Deus é o dono absoluto da soberania, e portanto faz o que Ele deseja. Ninguém pode cobrá-lo por Seus atos. Por ser absolutamente Justo e Sábio, e absolutamente Misericordioso e Compassivo, Ele faz apenas o bem e nunca prejudica Suas criaturas.

Nós não podemos interferir com a operação do universo. O sol sempre manda calor e luz independente de nós, a Terra gira no seu eixo e ao redor do sol, dias e meses passam, as estações e os anos vêm e vão, e nós não temos controle sobre a natureza. Existem inumeráveis casos de inteligência em todos as atos de Deus, todos os quais nos beneficiam. Portanto, nós devemos estudar e refletir sobre Seus atos e descobrir sua sabedoria:

"Na criação dos céus e da terra e na alternância do dia e da noite há sinais para os sensatos, Que mencionam Deus, estando em pé, sentados ou deitados, e meditam na criação dos céus e da terra, dizendo: Ó Senhor nosso, não criaste isto em vão. Glorificado sejas! Salva-nos do tormento infernal!" (3:190–91)

Nós deveríamos refletir sobre o que acontece conosco. Deus nunca deseja o mal para Suas criaturas, pois qualquer que seja o mal que te aconteça vem de você mesmo (4:79). Em outras palavras, nossos pecados são a origem de nossas desgraças. Deus permite que desgraças nos assolem para que assim nossos pecados sejam perdoados ou para que assim nós sejamos promovidos para níveis mais altos. Mas isso não quer dizer que Deus, por uma razão conhecida apenas por Ele, às vezes faça vistas grossas de nossos pecados e não nos puna.

O segundo aspecto desse relacionamento se relaciona com as injunções e proibições religiosas, as quais se relacionam ao livre-arbítrio humano. Enquanto Destino Divino é absolutamente dominante naquelas áreas nas quais nosso livre-arbítrio não tem nenhum papel (por exemplo, criar e controlar todas as coisas e seres, tanto quanto corpos animados e inanimados, movimentos planetários, e todos eventos planetários ou fenômenos), Ela leva nosso livre arbítrio em consideração. Deus cria todas as coisas e eventos, incluindo todos os nossos feitos, porque Ele nos honrou com livre-arbítrio e preparou uma moradia eterna para nós. Ainda que ele deseje que nós sempre façamos o que é bom e insistentemente nos convida a isso, Ele não se priva de dar existência física e eterna para nossas mas escolhas e mal atos, mesmo Ele estando descontente com elas.


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